Pelada com garçons, carona de fã: as histórias do agora quarentão Angelim
Marcado
pelo jeito simples de levar a vida, herói do hexacampeonato brasileiro
nega status de ídolo, mas reconhece que muitos rubro-negros o admiram
por todo o país
Ronaldo Angelim mora em Juazeiro-CE, onde a história do padroeiro Padre Cícero, o Padim Ciço (Foto: Cahê Mota)
Herói
do hexacampeonato brasileiro, Ronaldo Angelim é ídolo da torcida
rubro-negra, mas rejeita tal status. A simplicidade sempre o marcou.
Avesso à noitadas,
joias e roupas de grife, coleciona passagens que escancaram o desapego
às coisas materiais. Jogava pelada com garçons na Praia de Copacabana,
onde também tinha o hábito de comer macarrão sentado sob uma árvore na
movimentada esquina da Rua Barão de Ipanema com a Avenida Atlântica.
Voltava do Maracanã no ônibus do clube, mas, na ausência do veículo
oficial, já pegou até carona com torcedor, em história narrada pelo hoje
santista David Braz, seu parceiro de zaga e autor do outro gol do
Flamengo na vitória por 2 a 1 sobre o Grêmio em 6 de dezembro de 2009.
Angelim
completa 40 anos nesta quinta-feira, e, embora tenha pendurado as
chuteiras em 2013, segue subindo para cabecear a bola contra a rede do
Grêmio a cada clique diário dado pelos fãs para rememorar a conquista
que interrompeu jejum de 17 anos no Brasileiro. É ídolo ou não?
-
Ih, rapaz, "ídolo-ídolo" é Zico. Eu acho que fiz um bom trabalho aí,
mas ídolo é Zico. Tenho o reconhecimento, sei que a torcida gosta e tem
carinho por mim, mas ídolo é Zico - insistiu, em contato telefônico com o
GloboEsporte.com.
Ih, rapaz, "ídolo-idolo" é Zico. Eu acho que fiz um bom trabalho aí, mas ídolo é Zico".
Ronaldo Angelim
Angelim
confessa que, quando pequeno em Juazeiro do Norte, no Ceará, não
vislumbrava honrar um dia a camisa do Flamengo, a mesma que vestia desde
pequeno.
- Se eu falar pra você que imaginava, vou estar é
mentindo e muito. Jamais imaginaria que ia jogar seis anos no clube do
meu coração e conquistar títulos importantes com meus companheiros. É
uma coisa que vai ficar pra sempre, para os meus filhos, netos. Não tem
preço, foi maravilhoso.
Filho
do vascaíno Antônio Leite, quem Angelim garante hoje estar mais para
flamenguista do que cruz-maltino, passou a herança rubro-negra aos
filhos Ronald e Rikelme, de 15 e 9 anos. A dupla integra a base do Icasa
e não dará forra ao pai: é formada por dois defensores.
-
(perguntado se não era melhor que os filhos fossem atacantes) Não
(risos), eles querem jogar na posição que o pai jogou e fica mais fácil
de ensinar.
Meses antes do gol do hexa, em documentário sobre o
tricampeonato carioca de 2007/2008/2009, Angelim cunhou frase que o
tornou ainda mais popular junto aos rubro-negros: "A minha vaidade é o
Flamengo vencer". Seis anos depois, o zagueiro detalha a declaração.
-
Sou torcedor mesmo, gostava tanto do clube. Acho que qualquer coisa que
ouvia de pessoas que não tinham compromisso me incomodava. Jogar pelo
Flamengo é oportunidade única, e algumas pessoas desvalorizam isso. Como
sou um cara que visto a minha camisa, isso (descompromisso) me chateia
mesmo.
"Jogar pelo Flamengo é oportunidade única, e algumas pessoas desvalorizam
isso. Como sou um cara que visto a minha camisa, isso (descompromisso)
me chateia mesmo".
Angelim, explicando o site da frase "A minha vaidade é o Flamengo vencer"
E Angelim teria alguma vaidade para encarar a "fase quarentão"?
-
Vaidade nenhuma. Todos nós vamos ficar velhos, tem que agradecer a
Deus. Completar mais um ano é motivo de felicidade para mim. Tô
tranquilo, sossegado. O corpo é o mesmo. Procuro fazer as coisas
corretas e racho (joga pelada) todo dia para não engordar. Tem que
rachar (risos). Ontem, aliás, foi o dia do meu racha.
O
"racha" com garçons conterrâneos, aliás, era hábito dos tempos de Rio de
Janeiro, mas somente quando havia brecha no calendário rubro-negro.
-
Jogava com os garçons quando não tinha compromisso sério do Flamengo,
mas só participei uma vez jogando mesmo (na linha). Nas outras, eu ia
pro gol pra completar o time.
carona com torcedor
Ronaldo Angelim e David Braz em treino do Flamengo em 2011 (Foto: Richard Souza / Globoesporte.com)
Autor
do primeiro gol rubro-negro na partida contra o Grêmio que garantiu o
hexa, David Braz era muito próximo de Angelim na época de Flamengo. Nas
viagens, invadia sempre o quarto do amigo, que concentrava ao lado do
lateral Juan. Nos jantares, eram sempre os últimos a subir, porque Braz
adorava ouvir as histórias de Angelim. Uma das mais curiosas foi o
próprio santista que presenciou.
- Num jogo, eu e ele ficamos
para o antidoping e saímos muito tarde do Maracanã. O ônibus do Flamengo
(que Angelim usava para se deslocar até à Gávea e de lá pegar carona
com a família) já tinha ido embora. Ofereci carona a ele, que respondeu:
"David, você mora na Barra e eu, em Copacabana. Vai ficar muito
contramão". Estávamos no estacionamento autografando camisas e parando
para fotos. Um torcedor escutou nossa conversa e disse: "Angelim, eu
moro em Copacabana. Eu te levo". O Angelim disse "Demorou, vou contigo
então" e foi (risos). Eu nunca tinha visto um jogador fazer isso, era um
cara muito humilde, simpático e carismático com os torcedores. Pegou a
carona com um cara que nem sabia quem era. Foi muito legal - relatou
Braz, em depoimento concedido um dia antes da final da Copa do Brasil.
David Braz, aliás, considera Angelim ídolo dos rubro-negros e dele próprio.
- É
ídolo do Flamengo e meu ídolo também. Gostei muito de jogar ao lado
dele, aprendi muito com ele, que me ajudou muito na minha passagem pelo
Flamengo, até mesmo quando não atuava do meu lado. Sempre procurava me
orientar, desde a chegada até o final. Até hoje a gente tem contato, a
família dele me manda queijo e uns doces do Ceará. Presenteei a família
dele com a camisa do Santos pela nossa amizade. Sempre estamos nos
falando - emendou.
abraço do capitão e "batcaverna" do papada
Fabio
Luciano e Ronaldo Angelim assistiram juntos à semifinal da Copa do
Brasil de 2013, contra o Goiás (Foto: Master Sports & Mkt)
Embora
tenha tentado primeiramente contato com Ronaldo Angelim, o
GloboEsporte.com só conseguiu o retorno do ex-zagueiro um dia depois.
Fabio Luciano foi o primeiro dos personagens da matéria a responder e,
informado das dificuldades de se encontrar Angelim, brincou: "É a
Batcaverna do Papada", fazendo alusão ao estilo reservado do
ex-companheiro. Em seguida, o capitão do tricampeonato carioca de 2009,
encheu a bola do amigo e decretou: é ídolo, sim senhor.
- Não
só para mim, mas como para todos os torcedores do Flamengo, tenho a
certeza de que o Angelim será um ídolo eterno do clube. Não só pelo gol
decisivo contra o Grêmio, mas também por toda dedicação e entrega
vestindo a camisa do Flamengo. Por sua competência,simplicidade e
eficiência, ficará marcado para sempre na memória de todos os torcedores
e atletas que jogaram ao seu lado. Tenho um carinho e respeito eterno
por todos os atletas que estiveram ao meu lado em todos os clubes que
passei, independentemente de posição ou titularidade, mas o Angelim tem
um lugar muito especial em tudo isso. Fizemos uma dupla de zaga
consistente, respeitada dentro do clube e pelos adversários, mas
principalmente tenho o orgulho de dizer que trabalhei com um dos caras
mais incríveis que existiram no meio da bola. Íntegro, honesto, amigo,
sincero, profissional e competente. Desejo a você, Magro de Aço, toda a
felicidade do mundo e saúde. Que Deus abençoe seus caminhos sempre,
amigo, e conte com seu Capitão para tudo e quando precisar - encerrou.
Imagem com brincadeira "There's only one Ronaldo" foi divulgada pelo "Bola nas Costas" (Foto: Reprodução)
O
apelido Papada, como os companheiros de Flamengo referiam-se a Angelim,
não foi criado por Fabio Luciano, mas, de acordo com o aniversariante
do dia, o capitão consolidou a brincadeira.
- Quem botou
apelido o de Papada foi o Fabiano Oliveira, atacante. Fabio Luciano
começou a me chamar assim e pegou. Antes e depois dos treinos, a gente
ficava brincando de acertar o travessão.
Quando acertava, eu falava:
"Ui, papada!". Aí pegou.
Papada ou Magro de Aço, Angelim é o
único Ronaldo para os rubro-negros. A torcida do Fla, após o gol do
hexa, adotou a frase "There's only one Ronaldo", provocação de fãs de
Cristiano Ronaldo ao Fenômeno. No caso flamenguista, tratava-se de
indireta também a R9, que optou pelo Corinthians em 2009. Com a
traumática saída de Ronaldinho Gaúcho, em 2012, o lema ganhou ainda mais
força.
Reginaldo Cara de Gato: artilheiro alvinegro do passado torce pelos goleadores do presente
Já veterano jogando em amistoso comemorativo pelo centenário do Vovô
Reginaldo Cara de Gato, ex-ídolo de Ceará e Ferroviário, não tem dúvidas acerca do vencedor do Clássico-Rei desta noite, na Arena Castelão. O goleador acostumado a brilhar no maior palco do futebol cearense, nos tempos em que um fosso separava as arquibancadas do gramado, aposta num triunfo tranquilo por parte do Alvinegro: 2 x 0.
De fazer gols Reginaldo entende, e ele até arrisca quem vai balançar as redes que, um dia, já cederam aos seus encantos: Magno Alves e Assisinho. A aposta no Magnata se deve a qualidade diferenciada do camisa 11 do Vovô. Afinal, um matador reconhece outro quando o vê em ação. Já a torcida por Assisinho é por solidariedade. “Torço muito pelo Assisinho, por tudo que ele enfrentou no ano passado”, justifica Reginaldo Cat Face. Ele tem razão. Foram tempos difíceis para Little Assis, ano passado. Uma transferência conturbada ao deixar o arqui-rival Fortaleza, muitas lesões e nenhum gol marcado, durante os torneios que o Alvinegro disputou, marcaram a temporada do atacante.
Os tempos são outros, e Reginaldo só quer que Assisinho mantenha a boa fase (foram oito gols marcados este ano) honrando a mística da dinastia dos atacantes matadores em Porangabuçu.
Goleadores natos, inclusive, são uma frustração para Cara de Gato. Para ele, faltam matadores, sobretudo no futebol cearense. Na opinião do ex-goleador, hoje com 41 anos, no futebol atual predomina a força física e a ocupação de espaços. Atacantes com pouca movimentação ou sem técnica não têm muita chance. “Falta treinar melhor esses fundamentos na categoria de base”, critica.
Por falar em categoria de base, Reginaldo mantém uma escolinha de futebol no bairro José Walter. É lá que leva crianças carentes das ruas do bairro para o campo onde ensina os fundamentos do esporte com o qual ganhou a vida e sustentou os filhos. Quando não está com os meninos no campo, pode ser encontrado na distribuidora de bicicletas, na qual é sócio com uma irmã.
Dos tempos de atleta profissional ficaram as boas lembranças e alguns dissabores. Entre os momentos inesquecíveis, Reginaldo lembra três que continuam vivos na sua memória afetiva. Ele puxa o seu Sanmsung Galaxy, e mostra, orgulhoso, os lances que considera parte preciosa do seu legado como jogador. Um drible desconcertante em Fábio Baiano, volante do Flamengo, pela Copa do Brasil, em 2003. Outro lance é um gol marcado contra o Fortaleza, num Clássico-Rei, naquele mesmo ano. Mas ele fica orgulhoso mesmo com uma partida contra o Tricolor vencida por 2 x 0. Ele nem fez gol, mas nem precisava. “A mídia tava dando toda a atenção para o Fortaleza e deixando o Ceará de lado. Santana e Fábio Jr foram lá e calaram a boca de muita gente”, relembra.
Também houve coisas ruins que deixaram marcas em Reginaldo. O jogador que brilhou em equipes medianas dos futebol grego e espanhol, não teve um final de carreira feliz. “Eu nem digo que me aposentei, quem me aposentou foi o Araçatuba-SP”, brinca. Aos 36 anos, em 2009, foi jogar o Paulistão pelo clube, mas ficou somente um mês e meio. Recebeu um cheque de 30 mil reais, referente a salário e pagamento de luvas.
Ao chegar em Fortaleza, uma triste surpresa. O cheque não tinha fundos. “Foi aí que eu me desiludi mesmo e resolvi pendurar as chuteiras”, conta. As boas experiências e os dissabores servirão ao filho Lucas, 13 anos. Atacante como o pai, quer trilhar os passos sedimentados pelo exemplo que tem dentro de casa. Já há interessados no aspirante a artilheiro. Reginaldo confidencia que o Ceará já convidou o menino para treinar na escolinha do clube, no CT Luís Campos em Itaitinga. Parece que o Alvinegro confia na linhagem Cara de Gato para garantir gols e títulos no futuro
Atacante andarilho, Júnior Pipoca concilia carreira no futebol com administração de bar
Com passagens por sete países no currículo, o cearense Júnior Pipoca, artilheiro conhecido como Diabo Loiro, investiu R$ 100 mil para montar um boteco temático
Júnior decidiu criar um espaço "sala de imprensa". O jogador revelou que muitas pessoas tiram no foto no local (FOTO: Lucas Catrib/Tribuna do Ceará)
A parede principal do bar tem fotos da carreira do jogador
(FOTO: Lucas Catrib/Tribuna do Ceará)
O Boleiros Sport Bar fica localizado na rua Edilson Brasil Soares, no bairro Edson Queiroz, em Fortaleza (FOTO: Lucas Catrib/Tribuna do Ceará)
O Boleiros Sport Bar fica localizado na rua Edilson Brasil Soares, no bairro Edson Queiroz, em Fortaleza (FOTO: Lucas Catrib/Tribuna do Ceará)
O Boleiros Sport Bar tem várias televisões (FOTO: Lucas Catrib/Tribuna do Ceará)
A vida de José Luiz Guimarães Sanabio Júnior se confunde com o termo administrar. Aos 17 anos, a gestão emocional de ter se tornado um jogador profissional após três meses de vivência na base do Fortaleza. Depois, 10 anos de estadia na Europa, com línguas por vezes indecifráveis no caminho do sucesso. Na reta final de uma longa carreira, o atacante tenta mais uma finalização ousada. Entre treinamentos e jogos, agora é dono de um bar temático.
Apelidado de Diabo Loiro nos tempos de Vitória, mas Pipoca para os cearenses, o centroavante resolveu investir em um local especializado em receber amantes do futebol. Ambiente propício para um happy hour, o Boleiros Sport Bar, localizado no bairro Edson Queiroz, claro, relembra a carreira do jogador cearense. Fotografias do próprio Júnior e de amigos que marcaram época nos gramados estão estampadas na principal parede do estabelecimento.
“Eu tinha o sonho de abrir um comércio, colocar um bar e contar a minha história. A questão de reencontrar amigos. Eu passei muito tempo fora, 15 anos longe de Fortaleza. Voltei no ano passado.
Gostaria de ter um barzinho onde os meus amigos pudessem me prestigiar. Tem foto de clubes que eu joguei na Europa. São sete países e 21 clubes. Pela conta, são 21. Já veio o Iarley, o Bechara. Dia de quarta-feira tem o racha (pelada) do Sindicato dos Atletas e alguns também aparecem: Gaúcho, Maizena, Petróleo, Clodoaldo”, indicou Júnior.
Júnior tem recebido fãs no Boleiros Sport Bar (FOTO: Lucas Catrib/Tribuna do Ceará)
Aberto de terça a domingo, o empreendimento tem lotação em dia de jogos de futebol. O Tribuna do Ceará visitou o local quando o Ceará goleou o Vila Nova, em partida realizada em Goiânia. O comerciante também decidiu incluir música ao vivo como atração no estabelecimento. A partir de quarta-feira, o bate-papo tem como som de fundo um toque de MPB.
Júnior, inclusive, já é proprietário de um estúdio de designer em sobrancelhas há quase um ano, mas apenas age como sócio investidor. Para a nova empresa, que custou aproximadamente R$ 100 mil, o atleta fez um curso no Sebrae. “Eu não tinha experiência de nada, mas fui pesquisando também”, relatou. Atualmente no Tiradentes, o centroavante disputa a Taça Fares Lopes.
“A vida está corrida demais. Eu sou enérgico. Eu detesto dormir. Eu sei que é puxado, mas é o momento. Eu tenho que divulgar o bar, tenho que estar dentro do bar, ao mesmo tempo que eu tenho que acordar cedo para treinar. Eu estou tentando me virar nos 30, para tentar tirar tempo para velejar, ficar com minhas filhas”, comentou Júnior.
O cardápio faz uma homenagem a termos utilizados no futebol
(FOTO: Lucas Catrib/Tribuna do Ceará)
Os fãs
Depois de ganhar destaque em Salvador, quando Júnior pediu uma oportunidade nos dois principais clubes cearenses, sem efeito, o próprio Ceará o contratou em 2011. Em campo, o jogador conquistou o Campeonato Cearense, competição que o Alvinegro não vencia desde 2006. O troféu tem efeito.
Durante a entrevista, torcedores apareceram para pedir um registro fotográfico com o vivido futebolista.
Polêmico
Em meio ao fato de ser ainda um profissional, Júnior lamentou as críticas cearenses quanto a vida extra campo. Sem medo de alguma controvérsia, a criação do bar surgiu de uma forma natural. “Quando eu vinha da Europa, empurrava o pé mesmo. Passava 11 meses correndo atrás de bola. Jogador, quando está de férias, quer tomar a cervejinha dele, sair para a festa. Eu mesmo, quando saía na Bahia, o torcedor queria pagar a conta. Aqui, nunca vi um torcedor chegar: ‘Júnior, deixa que eu pago’. O Júnior pode ser o cara que deu uma voltinha, mas quando entra em campo é profissional. É o primeiro que chega em campo. Qual o problema tomar a cervejinha? Se o cara sair, tomar a cerveja dele, e no outro dia chegar no horário certo, faz gol, rende, tem que ser respeitado”, comentou.
Júnior guarda lembranças da carreira. Um dos objetos é o cachecol da época em que atuava no Copenhague, time da Dinamarca
(FOTO: Lucas Catrib/Tribuna do Ceará)
Planos para o futuro
Júnior não tem perspectiva de um prazo para encerrar a carreira. Contudo, tem a convicção que continuará no meio da gestão. “Quero continuar empreendendo. Mais para frente estudar, para ser um treinador, um gerente.
Falo quatro línguas. Eu tenho muitos contatos lá fora.
Para mim, o futebol me deixa isso. Eu sei que está perto de encerrar, mas a experiência de vida, de cultura, vale mais do que qualquer faculdade”, ressaltou. Outra certeza é o crescimento de uma nova paixão esportiva.
Há um ano, o atacante pratica kitesurfe. “Eu estou tentando tirar tempo para velejar”, revelou.
Boleiros Sport Bar: Av. Edilson Brasil Soares, 1725, Seis Bocas, Fortaleza – (85) 3055 7025.
Júnior Sanabio
FICHA TÉCNICA
Nome: José Luiz Guimarães Sanabio Júnior
Data de nascimento: 15 de junho de 1976 (38 anos), em Fortaleza
Edmilson Filho, do filme “Cine Holliúdy”, é entrevistado no Programa do Jô; assista na íntegra
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O ator cearense Edmilson Filho, famoso por protagonizar o filme “Cine Holliúdy”, sucesso de bilheteria, foi entrevistado, nesta quarta-feira (30), no Programa do Jô.
Comandante da boa campanha do Icasa, o jovem Sidney Moraes é um técnico com ideias à moda antiga O treinador do Icasa, Sidney Moraes, 36, bem que poderia ter nascido dez gerações atrás. Apesar da pouca idade, ele prefere levar a vida com preceitos para lá das antigas. O mineiro de Ituiutaba, localizada a 685km de Belo Horizonte, é do tempo em que a palavra de um homem valia mais do que qualquer assinatura ou quantia monetária; e um aperto forte de mão e olhar no olhos eram sinais de respeito ao compromisso firmado.
Sidney Moraes tem valorizado a disciplina no contato com seus atletas (Foto: Bruno Gomes)
E é fincado no significado de palavras como profissionalismo, dedicação ao trabalho e, sobretudo, disciplina que o técnico já entrou para a história do futebol cearense ao projetar o Verdão do Cariri ao que já é considerada a melhor campanha de um time do interior do Estado em campeonatos brasileiros da Série B. São 50 pontos restando apenas seis rodadas para o fim da competição. O caminho até aqui, contudo, foi cheio de pedras. "Montei o time no decorrer da competição. Acha que é fácil?", desabafa, por um instante. Pulso firme Desde que chegou, em junho deste ano, Sidney passou por pressões e muita desconfiança da torcida, especialmente por conta da sua curtíssima carreira como treinador. Também teve de administrar problemas de indisciplina com jogadores importantes como Alex Williams, Carlinhos e, mais recentemente, o artilheiro da equipe, Tadeu. Todos foram afastados do grupo. "Quando é para passar a mão na cabeça, a gente passa. Mas quando é preciso ser duro, a gente é. Não dou mole, não. Não existe êxito sem disciplina. E os jogadores perceberam que isso é profissionalismo", diz o técnico.
Com o apoio da diretoria do clube, foi conquistando o respeito dos funcionários, crônica esportiva, torcida e jogadores. "Ninguém faz nada sozinho. Todos são valorizados da mesma forma aqui. Cada um joga pelo outro. Faz parte do pacote". O resultado foi a implantação de uma filosofia de união, de pensar um jogo de cada vez. O grupo do Icasa se condensou. Com uma das menores folhas salariais do torneio, tem conseguido desbancar grandes clubes do futebol nacional na tabela de classificação. Superstição Antes de cada partida, ele permanece abraçado aos demais atletas no banco de reservas aguardando o apito inicial do árbitro. É mais uma de suas "manias" em dia de jogos do Icasa.
Sidney sempre usa a mesma camisa polo de cor azul escura em todos os jogos, concede entrevista para TV Verdes Mares Cariri no mesmo local no aeroporto
Orlando Bezerra de Menezes. Costuma sentar no mesmo lugar no ônibus (poltrona bem atrás do condutor) e não deixa o motorista dar marcha ré no veículo.
"Tem funcionado, por isso procuro manter as mesmas coisas em dias de jogos. Mas não é superstição, só repito o que tem dado certo", sorri, meio desconcertado em expor esse tipo de crença. "A camisa fui eu mesmo quem comprei. Nada especial. Só gosto de usá-la", resume.
O técnico já foi conhecer a estátua de Padre Cícero, no Horto, ponto de peregrinação de milhares de nordestinos no Cariri. "Assim que cheguei, fui lá fazer uma visita", conta, garantindo que não chegou a fazer promessa alguma. Histórico e permanência Como jogador, o volante Sidney começou a carreira no São Paulo, em 1997. Foi para o Sport, três anos depois. Em 2001, chegou ao Fluminense, onde chegaria a atuar ao lado de Romário, dois anos depois.
Também jogou em Portugal e Emirados Árabes Unidos, mas encerrou a carreira no interior de Minas Gerais, no Boa Esporte. Foi lá também onde iniciou na função de técnico. De auxiliar de Nedo Xavier foi convidado a assumir o time no ano passado.
Em seu segundo clube como técnico profissional, ele diz que continua estudando para aprender cada vez mais sobre o assunto. Oswaldo de Oliveira, Nelsinho Baptista, Tite, Muricy Ramalho e Wanderlei Luxemburgo são suas principais referências.
Na vida pessoal, o estilo é mais reservado
A dedicação ao trabalho tem obrigado Sidney a aproveitar poucos os momentos de folga. Ele diz que quando sai de casa gosta apenas de conhecer restaurantes. Após quatro meses em Juazeiro do Norte, resolveu convidar profissionais da imprensa esportiva local e amigos para um bate-bola descontraído nesta semana. "É o primeiro tipo de diversão que vamos fazer nesse tempo todo aqui".
Hoje treinador, que começou a carreira no Boa Esporte, como auxiliar de Nedo Xavier, Sidney já foi volante do Fluminense e chegou a jogar com Romário. Na época, chegou a namorar por quatro anos a atriz Cristiana Oliveira (FOTO: CID BARBOSA)
Para passar o tempo nas horas vagas, recentemente leu a biografia do ex-atleta Casagrande.
Sidney fica encabulado quando o assunto são as mulheres. "Põe aí na matéria que o nome da minha namorada é Rafaela", avisa rapidamente, preocupado em revelar o nome da amada.
Rafaela é de Varginha (MG) e está há dois anos com o treinador. Sidney desconversa sobre um possível casamento e diz que consegue fugir bem do assédio feminino. "Não existe isso, não".
No histórico de namoros, Sidney já se relacionou com a atriz Cristiana Oliveira, por quatro anos, quando morava no Rio, em sua época de Fluminense.
Outra tentação ligada ao mundo de futebol também não costuma lhe dominar: o dinheiro. "Sou bem tranquilo nesse ponto. Tenho meu carro próprio, minha casa, sem problemas. Se dinheiro fosse o principal já teria deixado o Icasa", admite. Planos A permanência do treinador em Juazeiro do Norte deve enfrentar dificuldades para ser concretizada. "Quando o Icasa ainda estava com pouco mais de 30 pontos, surgiram algumas propostas de América/MG, São Caetano e Bragantino", revela o treinador. "Fiquei porque quis realizar o trabalho até o fim. Sobre o futuro, meu desejo é de permanecer", antecipa, ressaltando que também houve sondagens de times da Série A, mas não quis dizer os nomes. Ilo Santiago Jr.Subeditor
Nível de escolaridade do jogador de futebol profissional pode influenciar a sua performance
Grandes clubes das séries A e B já incentivam os estudos dos atletas de formação.
A rotina puxada de treinos e o calendário de jogos, que obriga a viagens constantes, faz com que muitos jogadores de futebol profissional deixem de lado os estudos para se dedicarem, com exclusividade, à carreira nos gramados. As exceções mais famosas são o falecido jogador Sócrates, que era médico, e os goleiros Victor, do Grêmio, e Richarlyson, do Atlético MG, que são profissionais de Educação Física.
Se até os anos 2000 era praxe a carreira de jogador ser prioridade, atualmente o nível de escolaridade tem sido exigido em diversos times.
Maurício Marques, coordenador dos cursos de treinadores da Confederação Brasileira de Futebol(CBF), acredita que o nível de escolaridade do jogador de futebol profissional é capaz, sim, de influenciar a sua performance em campo, colaborando com o desempenho do time: “A capacidade de interpretar o discurso do treinador, as questões do treinamento, a ciência do esporte e a questão científica por trás do treino, têm a ver com o nível educacional e o desenvolvimento cognitivo e social do jogador.”
Apoio dos clubes
Marques conta que desde que os clubes grandes, das séries A e B do futebol profissional, passaram a exigir que os atletas de formação estudem, a grande maioria dos jogadores têm conseguido concluir ao menos o ensino médio. “Já no caso do ensino superior, ainda são raros os jogadores que conseguem fazer um curso e concluí-lo”, diz.
Na segunda divisão, clubes como o Nilton Lins, de Manaus (AM), estimulam os estudos dos jogadores, subsidiando até 80% da mensalidade dos cursos superiores, além do pagamento dos salários.
Marques destaca que, quanto menos profissional é a série, menor a tendência de uma formação escolar adequada por parte dos atletas. “Aquele que estuda na formação de base do clube, que joga em clubes pequenos, tende a trocar de clube por causa da dificuldade de estudar. Outros clubes, grandes, têm escola dentro da concentração ou convênios com escolas públicas e particulares e ônibus para levar os atletas até lá – isso no cenário da formação de base. Depois que eles se profissionalizam, se não estudaram, a tendência é não voltar à escola”, conta.
Conscientização para uma melhor performance
Algumas famílias, na ânsia de ver o filho fazer carreira no futebol profissional, acabam exercendo uma influência negativa sobre a escolaridade do atleta. “Tem quem diga que ele tem que se preocupar em jogar, se profissionalizar e depois estudar”, conta Maurício Marques.
Dentro dos clubes, atualmente existe uma consciência maior sobre a importância de garantir o mínimo estudo para os jogadores. Marques reforça que a preocupação começou na virada do milênio: “antes o clube não questionava isso e, como a maioria dos atletas mora longe da família, os parentes não tinham como interferir nisso e os jogadores seguiam sem escolaridade”.
A consciência sobre a formação integral do atleta e a melhora da sua performance foram decisivos para que os clubes mudassem de postura. Além disso, aqueles que procuram estudar uma segunda língua, por exemplo, acabam valorizados economicamente na hora de serem negociados com clubes estrangeiros.
O nível de escolaridade lá e aqui
Se no Brasil, a “terra do futebol”, os jogadores profissionais têm, em sua grande maioria, o ensino médio completo, no exterior a coisa muda de figura. Pelo menos na Europa e nos Estados Unidos.
Marques relembra quando o jogador Roque Júnior comentou, num bate-papo, que todos os seus colegas do time europeu tinham nível superior completo. E aqueles que não haviam frequentado as aulas presenciais apelaram ao ensino à distância (EAD). “Por lá o atleta consegue treinar duas vezes ao dia e assistir a aula à noite. Há outras formas de conclusão dos ensinos médio e universitário que são adequadas à formação do atleta”, explica.
Nos Estados Unidos, a profissionalização é ligada à universidade. Tanto que, em diversas modalidades, o atleta entra para a universidade e só depois se torna um atleta profissional.
Para Maurício Marques, é preciso, no Brasil, haver adequação da vida esportiva do jogador de futebol profissional com a rotina escolar, de forma que a reposição de aulas seja combinada e o jogador possa, durante os campeonatos, dar continuidade aos estudos, mesmo com tantas viagens. “Existem estudos que indicam que, ao ter uma formação, o atleta consegue ter um planejamento mais completo da sua pós-carreira esportiva, ter uma outra opção. Tem jogador que para de jogar e fica sem perspectiva e o nível de escolaridade está diretamente ligado a esta questão”, conclui Marques.
Consultoria Técnica: Márcio Santos Por Jornalismo Portal EF
Alan Neto: "Faço minha coluna com borrifadas de sal, pimenta e muita pólvora"
Alan Neto em seu programa na TV O Povo (Foto: Divulgação)
A entrevista desta semana é sem dúvida alguma com um dos nomes mais importantes da história da imprensa cearense. Ele nasceu Manoel Simplício de Barros Neto, depois acrescentou o Alan e virou um dos grandes ícones do jornalismo. Alan Neto não nega a veia polêmica, ao afirmar que faz uma coluna borrifada de sal, pimenta e pólvora, é a favor das torcidas organizadas, diz que votaria em Cid Gomes para governador se fosse novamente candidato, confessa que tem um dom para criar personagens, como o homem mau, e reconhece que foi pego de surpresa ao ser demitido da TV Jangadeiro. Seu programa era chamado de “Superlativo”. Agora, é Trem Bala. Por que? Por causa da dinâmica que o Trem Bala dá e o Superlativo não dava. O Superlativo tinha um formato de programa. Era muita conversa. Eu criei a figura histriônica que era o Zé Gadelha, que fazia o papel do Zé Trator. Ele era muito mais lento, muito mais comentário. Então, quando eu vim para a Rádio O Povo, eu queria algo diferente. Eu queria uma coisa bem rápida, bem movimentada. E resolvi criar o Trem Bala, que tem como crônica maior a dinâmica de um programa, que a gente imprime e que atrai muito mais ouvintes e deu certo essa fórmula.
Seu nome de registro não era Alan Neto? Meu nome de registro era Manoel Simplício de Barros Neto. Eu acoplei o Alan, em uma determinada ocasião, com registro em cartório, para Manoel Simplício Alan de Barros Neto para que eu pudesse usar oficialmente, mas meu nome não tinha Alan. O meu nome é uma homenagem ao meu avô. Foi ele quem me criou até os oito anos de idade.
Você está fazendo sucesso na Televisão. Seu programa é o de maior audiência da TV O Povo? O que é melhor de se fazer rádio ou TV? Eu digo muito: Se me colocassem num canto da parede para decidir entre o rádio, a televisão e o jornal, eu escolheria o rádio, que é minha origem, é minha raiz. Eu acho o rádio simplesmente encantador. A partir do momento de que você não sabe quem está falando, o ouvinte te projeta de uma forma inteiramente diferenciada, ele te traça um perfil, uma fantasia do que você é. E isso é o que eu acho encantador no rádio.
Você fez parte da criação do Jangadeiro Esporte Clube. Sua saída da Janga foi só por causa do projeto na TV O Povo ou teve outra coisa? No primeiro momento, eu já estava há bem uns cinco anos lá. E chegou um superintendente que se achava que entendia tudo, mas na verdade ele não entendia nada. Tanto que ele demorou muito pouco. Ele achava que esporte nem dava retorno financeiro e nem audiência. Aí, ele chamou toda a equipe do programa, talvez deve ter convencido o escalão superior da emissora, pra dizer que o programa não dava retorno financeiro. Como se coubesse a nós a comercialização do programa. Só que era um dos programas de maior audiência na Jangadeiro. Então, ele resolveu extinguir toda a equipe. Simplesmente extinguiu. Botou sete para fora. Eu digo. Eu não pedi para sair. Eu saí na leva, que foi colocada para fora. Agora, a TV Jangadeiro não me deve absolutamente nada. Pelo contrário, eu é que devo a TV Jangadeiro pela projeção que eu tive lá. Um bom tempo depois, uns dois anos, quando o Chagas Vieira assumiu. A primeira coisa que ele fez, junto com o Diretor Nilo Sérgio, foi fazer uma pesquisa para saber o que estava faltando na programação. E 85% responderam que faltava um programa esportivo, faltava o Jangadeiro Esporte Clube, faltava o Alan Neto. E ele mandou me chamar imediatamente. Perguntou se eu tinha alguma mágoa, alguma coisa assim, eu disse que não tinha mágoa nenhuma. Perguntou se eu topava voltar e fazer novamente o programa, eu disse que topava. Eu perguntei se era com toda a equipe de novo. Ele disse que não. Que iria dar um novo design, uma nova moldura ao programa, e eu fiquei por dois anos. Foi quando surgiu o convite da TV O Povo.
E você aceitou na hora? O convite era para fazer o que eu queria na televisão. Eu não tive oportunidade na Jangadeiro de ser âncora. Quem apresentava era a Fabiane (Kaczan). Ela levantava a bola e eu entrava como analista. Eu nunca fui analista em nada. Eu sempre fui âncora. Eu queria que eles me dessem todo o tempo pra eu fazer o que faço hoje na TV O Povo. Eu até sugeri, mas eles acharam que só um falando não seria bom, que tinha de ter um contraponto de uma mulher bonita... Enfim. Entendi perfeitamente e não discuti já que me pagavam o que eu queria. E queriam que eu fizesse aquilo, então fiz numa boa.
E como foi a idéia de criar o Trem Bala pra TV e claro esse personagem do Evaristo Nogueira o Homem Mau? Acho que Deus me deu esse dom de criar personagem. Quando eu estava no Superlativo, eu criei no Zé Gadelha, o Zé Trator. O Gadelha, que hoje está no rádio em Canindé, era forte, não gordo, era tipo um soldado romano, forte, e ele era um pessoa bruta. Ele analisava e comentava de forma bruta, e eu criei o codinome de trator. Eu lia uma notícia e dizia: passa por cima trator. Por exemplo, ele dizia: tem de soltar uma bomba atômica na Federação com Josenéas Barroso e tudo por lá. Era assim, um personagem. Quando fui convidado pelo Dummar Neto para a TV O Povo, primeiramente, ele me deu carta branca, e depois me perguntou se eu queria trabalhar com a equipe do Timão do Povo. Ele disse que queria interagir e dar mais visibilidade ao Timão do Povo e perguntou se eu tinha alguma coisa contra. Eu disse que pra mim não tinha problema, pelo contrário, seria um prazer, o Sérgio Ponte é meu amigo e irmão e seria muito bom. Mas eu tinha que criar um personagem. E o Vavá, se você prestar atenção, ele fala de rompante, ele nunca fala normalmente. Se você ligar pra ele, ele vai atender parecendo que quer brigar. Aí, pensei, eu vou criar um personagem com o Vavá. Aí criei o Homem Mau. E o restante vai ter também seu estilo. O Sérgio é o algoz, para contra-balançar, com os dois, o programa tem a Daniela, e no começo tinha o Emmanuel Macedo, que era calmo e tranqüilo. Mas eu precisava de dois que batessem. Primeiramente, eu pensei no nome de Vilão. Mas aí, vilão, dava a ideia de novela, não gostei. E coloquei Homem Mau. E disse pra ele, esse é o seu personagem. Não alise o couro de ninguém. Se do outro lado a pessoas te responder, criticar e te rebater, você rebate também no mesmo tom.
E como está a repercussão disso? Ele incorporou de uma maneira impressionante. Maravilhosa. O bater na mesa. Aquilo dele pegou. Ele é incontestavelmente o pop star do programa. Para você ter uma ideia, nas interações do programa, por email, twitter ou telefone, 70 a 80 por cento é para ele. É impressionante. É todo mundo batendo pra levar. Então, ele incorporou muito bem, até na briga com o Sérgio, por vezes é real.
Você trabalha na TV, na Rádio e no Jornal. Como é o seu dia a dia? Eu digo muito para a Beth Deives (apelido da esposa). Eu só tenho tempo para ela no sábado, para nós fazermos as compras. É um costume muito antigo esse nosso de ir às compras no sábado. Ela entende demais. Veja só, eu acordo muito, muito cedo. Mas eu durmo muito tarde. Eu fico lendo até duas horas da manhã. Eu adoro ler. E acordo às seis e meia. E às oito e meia eu já estou indo para a televisão. Porque eu tenho de conferir. Lá tem o editor do programa que é o Eudes Brasil. Mas todas as matérias passam pelo meu crivo. Até porque, eu inovei de colocar matéria de um minuto e meio, em um minuto e meio. Que é para ter a dinâmica do rádio. Até porque a Rádio O Povo entra em cadeia e eu quero dar essa dinâmica do rádio. Então, eu vou lá para definir as matérias. Depois do programa, a gente escolhe algumas pautas, decidimos juntos e eu saio por volta de uma e meia da tarde. Eu vou almoçar lá pelas duas, duas e meia. Cochilo no máximo 40 minutos. Corro para a rádio, e dá rádio eu já venho para o jornal, que também é uma loucura fazer a coluna. E se Deus me dê forças eu vou até onde eu puder chegar. Mas isso tudo já virou um hábito.
Você disse que lê muito. O que você lê? Eu adoro ler biografias. Leio muitas biografias. Eu gosto muito. Atualmente eu estou lendo a biografia do John Kennedy. Maravilhosa. Já li muitas outras. Eu adoro. A gente vê o outro lado da pessoa.
Você nunca fugiu do mote de ser polêmico. Quais os benefícios e os prejuízos de seguir essa linha? Primeiro. o seguinte, Joel Silveira, maior repórter da história da imprensa brasileira, ele e Carlos Lacerda. Joel Silveira tinha uma frase que era genial: “No jornalismo existe o joio e existe o trigo. O joio é para o jornalismo polêmico é verdadeiro. O trigo é para assessor de imprensa e relações públicas. Então, ele seguia essa linha, era muito polêmico. Armando Nogueira também tinha uma frase genial. Ele dizia: “O jornalista para ser jornalista ele não precisa ter amigo, ele precisa ter fonte". Ou seja, que os amigos não misturassem a amizade com o profissional. E eu sempre achei que o que dá retorno, seja em jornal, televisão ou rádio, é você seguir pela linha polêmica. Que é você se equilibrando no fio da navalha, no olho do furacão. Desde que, e eu sempre tive esse cuidado, não atinja a honra de ninguém. Até hoje eu nunca fui processado por ninguém. A não ser pelo Cláudio Adão, que foi uma tolice dele, e que acabou dando em nada. Eu se tiver de fazer uma crítica, eu generalizo. Se tiver de fazer uma crítica direta, eu não vou desonrar quem quer que seja. Eu não sou disso. Agora, a linha polêmica me dar esse retorno. Ao invés da lengalenga, de querer fazer média. O ouvinte o telespectador, o leitor, ele percebe logo isso. Daí, graças a Deus o respeito que eu tenho perante a opinião pública.
Você já confessou que tem total liberdade no grupo O Povo. Nunca houve uma vez sequer em que você passou do ponto? Você já trabalhou em jornal. E sabe muito bem que acima de nós tem o patrão e a linha editorial do jornal. Eu, por exemplo, no esporte nem tanto, mas escrevo uma coluna dominical muito polêmica. Que fala de economia, negócios, política, de bastidores. Pra você ter uma ideia, no esporte eu demoro 40, 50 minutos no máximo. Essa outra eu demoro de duas a duas horas e meia. Primeiro que eu tenho de fazer triagem das informações. Então, tem uma redação diferente. Borrifada de pimenta, sal, ironia... Enfim. Mas aí, eu preciso saber qual é a linha editorial do jornal. Essa linha editorial eu não posso ultrapassar. E como eu tenho o poder da percepção, eu vejo qual é a linha do jornal. E para coluna ser publicada, ela passa pela triagem do editor-chefe. Ela não vai direto, principalmente essa coluna de domingo. E o editor tem total liberdade para tirar alguma nota que por exemplo vá de encontro com a linha do jornal. Como eu já convivo há muito tempo, eu já sei até onde eu posso ir e onde eu não posso ir. O Demócrito Dummar, quando vivo, ele mandava recados indiretos, quando eu ultrapassava essa linha. Ele ligava para mim, ele me chamava de Príncipe. Sempre num estilo diplomata de marca maior, extremamente gentil. Ele dizia: “Príncipe, a coluna tá maravilhosa. Tá excelente, mas só quero que você tire um só pouquinho do sal e da pimenta”. Aí, eu entendia o que ele queria dizer. Aliás sobre esse apelido Príncipe, eu queria que você falasse o motivo. Já ouvi dizer que era porque você era assediado por muitas mulheres... Não! Que é isso! Tem nada a ver. Até porque eu sou feio, eu só não sou é burro. Isso nasceu na época em que comecei no rádio. O Irapuan Lima (um dos ícones do rádio e da tv cearense) era meu primo e eu comecei a ajudá-lo. E o locutor do comercial acabou faltando um dia. Eu trabalhava como contra-regra. Aí, ele disse que nesse dia eu iria fazer também o programa. Eu disse que estava bem, já sabia de cor e salteado o programa. E o Irapuan era conhecido como o Rei do Auditório. Ele acabou dizendo no ar: Eu sou o Rei do auditório e agora a partir de hoje vocês ficam com o príncipe. E ficou realmente com esse título que vem desde o meu início no rádio. O outro motivo é pela forma como eu trato as pessoas. No meu programa, por exemplo, eu não critico colega de profissão, eu defendo, eu saio em defesa de todos. Sou extremamente ético nesse ponto. Uma história engraçada, eu me lembro certa vez que o Sérgio Pinheiro (comentarista da Rádio Verdes Mares) veio até aqui nos fazer uma visita, não lembro o que era. E quando ele foi embora, eu fui acompanhá-lo até o carro, que é um costume meu. Eu não o deixei até a porta, eu fui até o carro. Aí ele falou: “Eu tô impressionado, você veio me deixar até o carro. Isso é coisa de lorde, de príncipe”. E o Sérgio, de vez em quando, fica citando isso. Eu sigo muito a etiqueta, sou muito obediente à etiqueta. Eu gosto de ser gentil, de abrir porta do carro para a mulher, puxar a cadeira, enfim, essas coisas que eu sigo a etiqueta.
Alguns profissionais da mídia, seja no rádio, TV, jornal ou até internet são ameaçados por torcedores. Você já passou por algo do tipo? Não. Primeiro, porque eu torço pelo Ferroviário. E torço mesmo. Pessoal diz que eu quero fazer média, mas eu torço, sim. Desde a época do Ruy do Ceará. Ele fez minha cabeça. Eu já levei até minha neta para o clube. Então, torcedor do Ferroviário não briga com ninguém. E eu tenho como norma sempre ficar do lado do torcedor. Torcedor é espoliado. Ele não é respeitado como o cliente maior. Ao torcedor, proíbem dele entrar com apito, não pode beber no estádio, não pode levar sua bandeira, seu tambor, enfim. Além de ser explorado. Então, eu me ponho muito no lado do torcedor. E creio que isso me dá um respaldo muito grande. Eu não faço isso por demagogia. Eu faço isso pelo torcedor ser o cliente maior do futebol. Ceará, Fortaleza os grandes clubes vivem ou sobrevivem em função do torcedor. E ele é tremendamente espoliado. Ele não é respeitado. Na verdade, ele é desrespeitado. Ele é tratado às vezes como animal. Até na venda de uma simples água mineral, o torcedor é maltratado. Os caras dobram o preço de uma água. E ninguém vai preso?! Enfim, como eu me coloco muito do lado do torcedor, não para fazer média, e sim porque eu conheço o sofrimento dele e isso me dá um respaldo muito grande. E também pela minha linha de imparcialidade e de independência. Aliás, eu não permito que ninguém venha a público para criticar o torcedor. Acho que uma das primeiras vozes a se revoltar e ser contra a extinção de torcida organizada fui eu. Um estádio de futebol sem torcida organizada, sem aquela barulheira, vais se tornar um velório. É tanta proibição para o torcedor, eu já repeti isso várias vezes, que vai chegar um tempo em que vão colocar uma mordaça para ele não gritar. Só tá faltando isso.
Sérgio Ponte é seu irmão. Ele tem temperamento forte. Como é a sua relação com ele? O Sérgio tem o gênio forte. Ele tem o gênio completamente diferente do meu. Eu sou mais velho uns sete, oito anos que o Sérgio. Então, eu praticamente o criei. Minha família era muito grande, são 11 irmãos. Meu pai dizia: “cuide dele”. Ele dormia comigo. Ele pegou muita coisa minha. Menos o temperamento. Sérgio tem um temperamento muito forte. Sérgio tem uma tendência para rancor. Se ele brigar com você uma vez, ele briga com você pela vida toda. Ele deixa de falar com você a vida toda. Eu sou muito diferente. Sou inteiramente maleável. Eu sempre digo que construí na minha vida cinco amigos. Aquela pessoa de todas as horas, de sexta-feira da paixão, segunda-feira de carnaval, natal, enfim. Eu tive cinco amigos, porque um já morreu. E o Sérgio é um deles. Ele me ouve muito. Às vezes, eu sou contra o que ele diz, mas eu respeito a opinião dele. Sei a tendência dele, sei qual o time que ele torce. Porém, na hora que abre o programa, ele se transforma num profissional imparcial independente e que não faz média com ninguém. O Sérgio além de um irmão é um dos meus cinco maiores amigos.
Você tem uma coluna aos domingos. O que é mais difícil de fazer essa ou a de esporte que você escreve de segunda a sábado? Mil vezes mais a coluna de domingo. Mil vezes mais. No futebol, eu já tô na área faz tempo, qualquer fato eu transformo em notícia para a coluna. Nessa de domingo, não é bem assim. A política é muito dinâmica, a economia também. É muito mais difícil. Primeiro, eu dou uma conotação diferente. Ao invés de eu ser o analista o comentarista de jornal, e tem uns que querem ser cientista político, eu faço diferente. Eu faço a coluna informativa. Borrifando sal, pimenta, pólvora e tudo que se possa imaginar. E a minha coluna dominical hoje, dita pelo próprio jornal, é a coluna mais lida da imprensa. De domingo a domingo. Nenhuma bate a minha coluna. Por causa da redação que eu dou, pelo formato diferente, pela diagramação. Ela é muito rápida, você lê rápido. Ela tem muitas informações de primeira. Quantas notícias em primeira mão eu não dei? Show do Paul McCartney, várias de política. Enfim, ela é muito mais difícil, sim, de fazer. Falando em política... Você é a favor da construção de viadutos na cidade? Eu sou a favor do progresso. Agora, só que em local diferente daquele lá (Parque do Cocó). Invadir área verde, eu não concordo. Mas que sou a favor de viadutos eu sou, sim. Até porque a prefeita que esteve aqui, passou oito anos e não abriu uma rua, não alargou uma avenida, não construiu um viaduto, sempre empurrando com a barriga. Então, alguém tinha de fazer. Sob pena desta cidade virar um inferno de Dante, em que você não pode mais andar tamanho dos congestionamentos. Eu sou favorável a construção de viadutos, mas não nessa área que estão fazendo, porque não se preserva o verde. Agora, repito, sou a favor do progresso. Até porque, Fortaleza é uma grande metrópole, atrasada em oito anos, em uma gestão que a Luizianne não conseguiu fazer em termo de cidade praticamente nada.
2014 é ano de eleições. Se o Cid fosse candidato você votaria nele? Por que? Cid é um grande gestor. Muito melhor do que o Ciro, seu irmão. Ele é um ótimo gestor, mas um péssimo orador. Eu já disse isso na coluna. Ele gosta muito de falar em números e certa vez eu fui para uma palestra dele e ele falou tanto em número que eu cochilei. O que o Ciro tem de oratória, que é muito inteligente, uma linguagem de fogo, o Cid é mais técnico. É muito mais administrador. Eu votaria, sim, no Cid.
E a Presidenta Dilma? Votaria. Eu vou até parafrasear o que o Cid disse. A Presidenta Dilma é uma mulher honrada. Que faz. O que atrapalha ela são os assessores dela, que atrapalham em tudo.
O que você assiste na TV? Você lê outros jornais? Escuta outras rádios? Eu não gosto de assistir TV. A única coisa que assisto é o noticiário da noite. Até porque eu não paro. Meu único dia de folga é o sábado e passo o dia com minha esposa fazendo compras. É um hábito meu com minha esposa, passamos o sábado fazendo compras. No máximo, à noite, quando voltamos, assisto uma novela com ela. O que eu gosto mesmo é de ler. Se eu não ler por uma hora alguma coisa, eu não durmo. Tenho que ter dois, três livros na cabeceira da cama, se não, eu não consigo dormir.
Você acha que a maioridade penal deveria ser reduzida? Deveria, sim. Deveria ser reduzida para 16 anos. Sou a favor. Hoje, muita gente quer fazer graça no jornalismo esportivo e acaba passando do ponto. Como você analisa esse novo estilo? Eu acho que deveria temperar. Acho que há um excesso. Quem ver o noticiário quer ver o noticiário. Esse negócio de humor... Dá uma pinçada ali e tudo bem. Você não pode fazer daquilo é um hábito. Isso o público não gosta. O público tradicional não gosta.
Perfil: a insustentável leveza de ser Walter, um sobrevivente
Vida e obra do goleador têm irmão assassinado, devoção à mãe, mordida na professora, fugas no Inter, drama com a filha e paz no atual clube, o Goiás
Walter vive melhor momento da carreira no Goiás (Foto: André Durão / Globoesporte.com)
Walter tinha seis anos. Estava na rua quando o boato começou a correr. Ficou assustado. Subiu na garupa da moto dirigida por um de seus irmãos e saiu em disparada pelo Recife. Em poucos minutos, viu o ônibus parado. Aproximou-se. Dentro do veículo, jazia o corpo de Waldemir, outro de seus irmãos. Aos 18 anos, ele acabara de ser assassinado a tiros - executado por causa de uma rusga entre gangues rivais. Walter chorou. Chorou muito. E ainda hoje lembra de ter pensado: "Não quero isso para minha vida." A violência, muito mais do que a segurança, fez parte de sua formação.
Walter tinha sete anos. Era seu primeiro dia de escola. O menino olhou para um lado, olhou para o outro, pensou um pouco e concluiu que não queria estar ali, trancafiado. Saiu correndo. Começou a gritar. Viu a professora tentando impedi-lo de tirar a grade que o separava do pátio. E não titubeou: tascou uma mordida nela. Em seus primeiros minutos de vida escolar, foi expulso. Acabou frequentando o colégio até a sexta série. Foi reprovado repetidas vezes. Faltou uma aula atrás da outra. O desinteresse escolar, muito mais do que a educação, fez parte de sua formação.
Walter era uma criança entrando na pré-adolescência. Torcia pelo Sportcomo o mais fanático dos torcedores. Foi à Ilha do Retiro assistir ao time do coração. Mas não tinha um centavo no bolso. Tentou, em vão, convencer algum adulto a fingir que estava acompanhado dele - como fizera outras vezes para entrar de graça no estádio. Não conseguiu. De fora, com o coração na mão, apenas escutou os ruídos da torcida, tentando adivinhar o que acontecia no campo. A escassez financeira, muito mais do que o conforto, fez parte de sua formação.
Escondido sob uma imagem construída no excesso (de peso), aparece o verdadeiro Walter, homem moldado exatamente pelo contrário: pelas ausências. Ele joga futebol motivado por conquistar para o futuro aquilo que não teve no passado. Não é seduzido por fama, holofotes, uma vaga na posteridade. Nada disso. Quer é uma carreira que lhe ofereça dinheiro (não teve) suficiente para construir uma vida de conforto (não teve), de tranquilidade (não teve), de alimentação livre (não teve), de educação para sua filha (não teve). É emblemático: Walter, tão simples, tão cru, um homem quase em estado bruto, de formação escolar mínima, faz questão que Catarina Vitória, sangue de seu sangue, faça faculdade quando adulta.
A grande questão é que o exagero não explica Walter; a ausência, sim. O peso não define Walter; a leveza, sim.O camisa 18 do Goiás é o estereótipo do jogador brasileiro saído dos confins do esquecimento para ser salvo por uma bola de futebol. Tem uma história de vida impressionante, alicerçada em um passado de faltas (afetivas, financeiras, inclusive alimentares), de vazios (de educação, de planejamento, de perspectiva), até explodir em um presente de gols, de assistências, de conquistas. Tudo que aconteceu na carreira do jogador, tantos erros e tantas vitórias, pouco teve a ver com os quilos a mais que ele carrega no corpo. São fruto da inocência, da ingenuidade, da quase infantilidade dele - da insustentável leveza de ser Walter, uma criança sobrevivente em um mundo de adultos.
Walter é alavancado pelo passado e motivado pelo futuro (Foto: André Durão / Globoesporte.com)
Aos 24 anos, o camisa 18 coleciona dramas, causos e contradições que o transformam em uma das grandes personagens do futebol brasileiro. No Goiás, vive seu maior momento, protegido pelo clube, abraçado pelo técnico, acarinhado pela torcida. Às 21h desta quinta-feira, ele tenta colocar o time esmeraldino nas semifinais da Copa do Brasil. O adversário é o Vasco, no Maracanã. No mesmo Maracanã onde ele viveu uma história que resume bem sua leveza de espírito, sua ingenuidade.
De Quico a Walter: a dança, a infância e o primeiro sumiço
É madrugada de 22 de agosto de 2013. O vestiário dos visitantes do Maracanã recebe um elenco recém-derrotado pelo Fluminense por 1 a 0 pelas oitavas de final da Copa do Brasil(recorde no vídeo ao lado). Waltermergulha em silêncio. Está abatido - consequência de pênalti desperdiçado minutos antes. O zagueiro Rodrigo, um dos jogadores mais experientes do elenco, percebe a tristeza do colega. Aproxima-se dele. Tranquiliza-o. Lembra que grandes jogadores, mesmo Zico e Pelé, perderam pênaltis. E sugere que ele se anime, até para não influenciar o ânimo do grupo - é muito querido pelos colegas. Walter assimila a sugestão do defensor. Em instantes, coloca um música em volume alto. E passa a dançar no vestiário, para espanto dos demais atletas. Enderson Moreira, treinador da equipe, pede explicações ao atacante. "Ué, o Rodrigo disse para eu não mostrar que estava triste", responde ele.
Walter quando criança: bochechas renderam apelido de Quico (Foto: Reprodução/Instagram)
Walter Henrique da Silva nasceu em 22 de julho de 1989 como caçula entre seis irmãos. A família, constituída sob os cuidados de dona Edith, foi formada por duas mulheres, Sueli e Suzy, e quatro homens, todos com nomes iniciados por W: Wandeork e Waldex, além do finado Waldemir e do próprio Walter.Há dois anos, Waldex foi preso. A ironia é triste: foi detido por tentar roubar justamente um ônibus, o leito de morte de Waldemir. Walter o visitou na cadeia. Escutou palavras de arrependimento. E retribuiu com um aviso:
- Vida de bandido tem três destinos: ou é morto, ou é preso ou acaba aleijado. Deus dá uma chance para todo mundo, mas se pecar de novo, já era.
O jogador foi criado no Coque, zona muito pobre e particularmente violenta no Recife dos anos 90. Lá, mais do que Walter, era Quico, em referência à personagem do seriado mexicano Chaves - a exemplo dele, um menino bochechudo que está sempre agarrado a uma bola. Jogar futebol pelas ruas maltratadas da região era sua alegria. O sustento da casa saía da venda de perfumes de dona Edith. Ela carregava um cesto na cabeça pelas vielas do Coque, batendo de porta em porta. Mais de uma vez, teve que escapar de tiroteios. Chegava a deixar de comprar os ingredientes do café da manhã para dar dinheiro para o filho caçula ir treinar na escolinha do Sport ou do Santa Cruz.
Certa feita, quando o menino tinha oito anos, ela fez um esforço além do concebível e comprou um par de chuteiras para ele. Walter não entendeu direito o que poderia fazer com aqueles calçados nas ruas do Coque. Mas, tão novo, percebeu o tamanho do gesto de sua mãe. Não tirou mais aquele momento da cabeça. Começou a criar um plano que carregaria vida afora: retribuir cada sacrifício de dona Edith.
O nome dela está tatuado no braço direito do filho.
Walterviu de tudo. Viu assaltos.Viu trocas de tiros. Chegou a invadir casas de desconhecidos para escapar de balas (é curioso que hoje comemore gols simulando tiros). Viu gente morrendo na sua frente. Quando tinha 11 anos, de uma esquina, protegido por um muro, acompanhou a ação de um bandido que tentava roubar um carro. O motorista reagiu. Foi baleado. O assaltante saiu correndo, e o menino se aproximou do automóvel, como se aproximara do ônibus onde seu irmão foi assassinado anos antes. Viu a vítima agonizar até a morte.
Em casa, onde ficava sob os cuidados da avó enquanto a mãe trabalhava, Walter tinha nada mais do que o básico. Nem que chovessem canivetes dona Edith permitiria que o caçula trabalhasse. Mas o menino era inquieto. Sem que ela soubesse, empurrava carroças com papelões para ganhar uns trocados. Durante poucos dias, também vendeu cachorrinhos de pelúcia, daqueles que são colocados no espelho do carro e ficam balançando com o movimento.
Com 11 anos, vestiu a camisa do time do coração. Ganhou uma vaga na escolinha do Sport por causa de uma cortesia dada pelo Hospital Português. Foi sua mãe quem conseguiu. Nos treinos, enquanto os demais meninos eram observados por seus pais, Walter era acompanhado pela mãe.
Mas quando terminou o período da bolsa, seria preciso pagar para o menino continuar treinando, e não havia dinheiro. O futuro atacante ficou dois anos parado. Aos 13, soube de uma peneira no Coque. Um problema: era do Santa Cruz, não do Sport. Foi mesmo assim. Conseguiu ser aprovado. Começou a jogar bem. Acabou transferindo-se para o Vitória. Ficou seis meses em Salvador e aí rumou para Porto Alegre, a cidade que revolucionaria seu destino.
Walter chegou ao Inter em 2007, depois de chamar a atenção vermelha por outro clube porto-alegrense, o São José. Não demorou para se destacar. No ano seguinte, foi o melhor jogador colorado na Copa São Paulo de Juniores. O time gaúcho foi até as semifinais, sempre com a presença decisiva do atacante. Fez seis gols - dois deles nas quartas de final, contra o Santos, e outro na eliminação nos pênaltis para o Rio Branco. Daí para os profissionais, foi um pulo. A estreia foi em 11 de maio daquele ano, na vitória de 1 a 0 sobre o Vasco pelo Brasileirão, no Beira-Rio. Ele foi mandado a campo por Abel Braga aos 29 minutos do segundo tempo, no lugar de Iarley. No primeiro toque na bola, deixou o atacante Adriano em condições de marcar. O goleiro Tiago evitou o gol.
Mas a concorrência era pesada. Aquele time tinha os últimos passos de Fernandão e Iarley no Inter e ainda contava com Alex, Nilmar, Gil, Adriano, Daniel Carvalho e o surgimento de Taison. Walter só voltaria a jogar em 17 de julho, na vitória de 1 a 0 sobre o Atlético-MG. E seria titular pela primeira vez três dias depois. Detalhe: no Recife. O empate por 1 a 1 com o Náutico teve participação dele. Walter mandou chute no travessão, e Nilmar, no rebote, fez o gol colorado (lembre no vídeo ao lado).
O jovem atacante teve participações esporádicas no segundo semestre de 2008, um começo promissor em 2009 e depois uma grave lesão. Em maio, pelo time júnior, ele prendeu o pé no chão e comprometeu os ligamentos do joelho direito. O jogo era contra o São José, justamente o time de onde tinha migrado para o Inter. Com o problema, ficou fora do restante da temporada. Perdeu o Mundial Sub-20, já que era figura constante nas seleções de base. Ficou tudo para 2010. E que ano seria aquele...
Era temporada de Libertadores. O Inter tinha novo técnico, o uruguaio Jorge Fossati. Para brigar pelo título, o clube apostou em contratações no exterior, casos de Edu e Alecsandro, buscados ainda em 2009. Walter teria dificuldades para ser titular. Mas ele fez o caminho dele. Naquela Libertadores, participou de oito jogos. Anotou um gol extremamente importante - na dramática vitória de 2 a 0 sobre o Banfield nas oitavas de final (reveja no vídeo ao lado). O jogo foi em 6 de maio. Dois meses antes, porém, parecia improvável que isso acontecesse.
Foi o caos. No dia 26 de fevereiro, Walter não apareceu no Beira-Rio. No dia 27, tampouco. No dia 28, idem. E assim seguiu. Resolveu trancafiar-se em seu apartamento. Não queria falar com ninguém. Não queria ouvir ninguém. Estava irritado, insatisfeito. Não queria mais saber do Inter.
Existem versões diferentes para o sumiço. Uma delas é de que Walter ficou irritado com Fossati, que o havia criticado publicamente; outra, é de que ele estava incomodado por não ser titular absoluto; uma última, defendida pelo próprio Walter, resume-se a um incômodo financeiro.
Foi um pouco de tudo, mas especialmente a última hipótese. Walter ganhava cerca de R$ 15 mil na época e negociava um aumento com o Inter. Boa parte do dinheiro, por volta de R$ 7,5 mil, sumia automaticamente, como abatimento de um empréstimo que ele fizera para comprar um apartamento para sua mãe em Boa Viagem, área nobre do Recife. Ele gastava outros R$ 3 mil de aluguel no imóvel onde morava no bairro Menino Deus. Com os descontos de lei, sobrava menos de R$ 3 mil para passar o mês. Resultado: começou a ter problemas para ajudar a mãe nas despesas em Pernambuco. E aí Walter lembrou de tudo que ela fizera por ele no passado. E entrou em parafuso.
O jogador não soube calcular o orçamento. Embananou-se com as contas. E viu dona Edith passar dificuldades. A situação ficou dramática. A mãe do atacante chegou a dar uma entrevista para o jornal "Zero Hora" afirmando que as contas estavam vencidas, que o condomínio de R$ 360 estava atrasado, que não havia gás em casa e que ela sequer conseguia contato com o filho, pois não tinha dinheiro para comprar cartão telefônico.
A isso, somaram-se as críticas de Fossati, que via Walter displicente nos treinos, e a comparação que ele fazia entre seu salário e o de colegas que rendiam menos ao time. O jogador resolveu fugir, sumir, se esconder do mundo. Ele ficou uma semana em seu apartamento, acompanhado pela namorada, Vanessa (que hoje é sua esposa). Já tinha problemas de peso, e engordou um pouco mais.
Mesmo assim, retornou ao Inter, mas primeiro para o time B, cujo técnico era Enderson Moreira, o homem que no ano seguinte telefonaria para ele em Portugal e faria uma pergunta que mudaria sua vida:
- Não quer vir jogar no Goiás?
Do Inter ao Goiás, Walter tem carreira de altos e baixos, com dramas e vitórias
(Foto: Editoria de arte)
O segundo sumiço, o adeus ao Inter, o drama em Portugal
Em 25 de março de 2010, Walter voltou a jogar pelo Inter. E o destino brincou com ele mais uma vez. A partida foi contra o São José, o mesmo clube onde ele jogou antes de ir para o Beira-Rio, o clube que era seu adversário quando ele se machucou. A partida foi trágica. O Colorado levou 3 a 0.
Walter foi a campo no segundo tempo.
Eram tempos turbulentos. A pressão sobre Fossati só aumentava, e Walter parecia uma bomba prestes a explodir. Dava entrevistas que deixavam a diretoria descontente. Lutava contra a balança.
Mas jogava bem. Ficava cada vez mais perto de virar titular. E começava a despertar o interesse de clubes europeus.
O gol de Walter contra o Banfield deu ao Inter o direito de encarar outro argentino, o Estudiantes, nas quartas de final da Libertadores. No primeiro jogo, no Beira-Rio, os gaúchos venceram por 1 a 0. A segunda partida, em Quilmes, foi uma guerra que entrou para o imaginário do torcedor colorado. Comandado por Verón, o time de La Plata conseguiu abrir 2 a 0. No último minuto, porém, Giuliano marcou para o Inter e garantiu a classificação. Walter estava em campo.
Assim que terminou a partida, quebrou o pau no gramado. O zagueiro Desábato, do Estudiantes, não gostou de ver seu conterrâneo Pato Abbondanzieri, goleiro do Inter, celebrando a eliminação de um clube argentino. Praticamente todos os jogadores se envolveram na briga. Mais tarde, no vestiário colorado, começou a circular a informação de que dois atletas vermelhos seriam suspensos.
Um todos sabiam: era o goleiro Lauro, que partira em defesa de Abbondanzieri. O outro era Walter. Acusação: fazer gestos obscenos para a torcida do Estudiantes.
Fernando Carvalho, na época vice-presidente de futebol do Inter, não podia acreditar. O Inter estava nas semifinais da Libertadores. Não ter Walter seria terrível. Ainda no vestiário, ele chamou o jogador para conversar. O atacante, no auge de sua ingenuidade, falou ao dirigente:
- Não precisa se preocupar. É a palavra do juiz contra a minha.
Walter, claro, foi suspenso. E acelerou seu adeus ao Inter. Com direito a novo sumiço. Em 25 de junho, no meio de um treino físico no Beira-Rio, ele simplesmente saiu. Deu no pé. Era uma sexta-feira. Ao deixar o estádio, afirmou que estava sendo negociado. Quatro dias depois, reapareceu no clube e pediu para treinar. Queria manter a forma física. Duas semanas depois, o Inter confirmou a venda de Walter para o Porto, de Portugal, por 4 milhões de euros. Já sem ele, o clube gaúcho foi campeão da Libertadores.
Aí começou outro momento marcante da vida de Walter. Em Portugal, ele pediu Vanessa em casamento. O curioso é como aconteceu. Souza, hoje volante do Grêmio, disse ao atacante que tinha decidido se casar. "Sério?", indagou Walter, sem entender a necessidade daquilo. Dias depois, Souza, já casado, falou ao colega de Porto: "Pô, Walter,casar é muito bom." O atacante pegou o telefone, ligou para Vanessa e perguntou a ela: "Ô, amor, que tu acha de a gente casar?". A namorada quase desmaiou do outro lado da linha - um pouco pela surpresa, um pouco pelo romantismo um tanto peculiar do namorado.
Vanessa e Walter se casaram em dezembro de 2010 em Portugal (Foto: Reprodução/Instagram)
Walter e Vanessa conheceram-se em 2009, em Porto Alegre. O jogador estava lesionado. Em uma festa, botou o olho na loira e trocou duas ou três palavras com ela. Não teve muito sucesso na aproximação. Mesmo assim, conseguiu o telefone dela. Uma semana depois, tomou coragem para telefonar. Levou mais um mês para conseguir sair com ela.
O namoro virou casamento em 2010. A união logo foi acompanhada pela posterior chegada da filha, Catarina Vitória. Mas a ideia era que ela se chamasse apenas Catarina. Ela ganhou o Vitória no nome por causa da batalha que enfrentou para sobreviver.
O bebê passou três meses entre a vida e a morte. Ainda durante a gravidez, Vanessa soube que tinha um problema no colo do útero - ela já tinha perdido um menino. Walter chegou a escutar de um médico que a chance de Catarina sobreviver era pequena. Mesmo depois do nascimento, pairou enorme preocupação.
- O médico me disse assim: "É um milagre de Deus ela ter nascido. Mas ela pode morrer a qualquer momento" - recorda o atleta.
Walter e a filha Catarina: alegria depois do susto (Foto: Reprodução Instagram)
Foram tempos terríveis. Catarina Vitória nasceu com 760 gramas. Na época, Walter estava na reserva do Porto e lidava mais uma vez com questionamentos sobre seu peso. A exemplo do que experimentara no Inter, tinha altos e baixos, com o futebol influenciado por sua vida pessoal. Ele praticamente não ficava em casa. Ia dos treinos no Porto para o hospital. Não tinha cabeça para trabalhar, e pouca gente sabia de seu drama pessoal - inclusive no clube.
- Ele estava muito angustiado. Era treino e hospital. Às vezes, para não dormir sozinho, ele dormia na casa do Hulk (atacante da seleção brasileira), uma pessoa maravilhosa, que nos ajudou muito. O Hulk virou um acompanhante do Walter. Quando soubemos desse meu problema, o Hulk pegou o carro dele, nos pegou e nos levou ao hospital. Mas deu tudo certo. Hoje, ela fica sempre com ele, fica dançando pra ele. Ele fica todo bobo - comenta Vanessa.
A maior alegria do jogador é ter Catarina Vitória a seu lado. Nas folgas, ele gosta de tirar uma soneca à tarde abraçado na filha. Quando brinca com videogame (joga futebol, escolhe o Goiás como time e se escala como titular), ela está sempre a seu lado. É por ela que ele joga futebol. Ela!